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A biografia não autorizada de Branca de Neve

A biografia não autorizada de Branca de Neve

jun 28, 2012

 

Branca de Neve e o Caçador é uma adaptação bastante fiel do conto dos irmãos Grimm, com diversas adições, que dão profundidade e consistência à trama.

O filme impressiona por seu roteiro sagaz, que em nenhum momento entrega tudo de “mão beijada” ou te diz exatamente o que as coisas são. Tudo é interpretativo, contado através do uso de metáforas, de olhares e de uma simbologia nórdico-celta-cristã.

O romance apresentado na trama é sutil, pode ser visto apenas nos olhares e nas atitudes, o que muitas vezes é confundido com superficialidade, é na verdade uma demonstração clara de uma história contada nas entrelinhas.

Na atuação, a vilã vivida por Charlize Teron se destaca interpretando magistralmente uma bruxa má com poderes mais coesos e justificados que todas as versões anteriores dos contos.

E mesmo assim, a magia é subjetiva. De maneira geral é tratada como alucinação, e, em outras ocasiões, supervalorizada. Para os soldados, cataputas arremessam “bolas de fogo”, um portão de castelo que se abre “sozinho” é tão magia quanto fadas, trolls, ou um exército de fantasmas.

Infelizmente, o ponto fraco do filme são as batalhas entre exércitos, que pecam em seu planejamento e execução e pouco adicionam a trama.

Tirando pequenos deslizes, fãs de mitologia fantástica tem aqui um prato cheio para analizar, discutir e aprender com tantas referências culturais.

“Era uma vez, no meio do inverno, uma rainha costurava e observava os flocos de neve cairem do céu através de uma janela negra como o ébano. Enquanto ela costurava e observava, furou seu dedo com a agulha e três gotas de sangue cairam na neve. As gotas pareciam tão belas na neve tão branca que ela pensou consigo mesma: – Ah se eu tivesse uma filha branca como a neve, de lábios vermelhos como o sangue, e cabelos negros como a madeira da janela!

A partir daqui, contém detalhes da trama. Leia por sua conta e risco.

Desde sua versão original, Branca de Neve, tem raízes profundas no cristianismo, vamos ao enredo básico: após o desaparecimento do Rei (que em algumas versões está morto, outras foi para a guerra, outras foi encantado), um Usurpador (a Madastra, que representa o Demo) dominou o reino e fez definhar a terra. Então, para salvar o reino, seria necessário que o filho (ou, no caso de Branca, a filha) crescesse naquele reino mau para poder salvar seu povo, mas para atingir esse objetivo, seria necessário morrer e ressuscitar.

Em determinado ponto, somos apresentados a um Cervo Branco, que lembra uma cena de “A Princesa Mononoke”, mas que aqui é duplamente justificada: em primeiro lugar, a cena remete ao batismo de Cristo, Porém, o cervo é na verdade Algiz uma figura da mitologia Nórdica que simboliza a proteção divina conseguida por merecimento, e o merecimento, no caso, veio de Branca ter tratado o passaro/fada em uma das primeiras cena, ainda criança. Por essa razão, os passaros a ajudam, o troll não a devora, e o cavalo branco está lá pronto a ajudá-la.

Além disso, o filme retrata a obsessão da vilã por ser a “Mais Bela” de uma forma sensacional: a beleza de Ravenna é a fonte de sua magia, criada por um antigo encanto proferido por sua mãe. Nesse ponto, temos a ligação de Ravenna a sua Nemesis: Branca de Neve, que se torna sua inimiga natural por possuir um encantamento semelhante ligado a sua beleza proferido de forma não intencional por sua mãe, antes de seu nascimento. Assim, Branca de Neve é a única barreira entre Ravenna e a destruição completa do reino, já que seu encantamento de Beleza drena os poderes de Ravena, fazendo-a ficar enfraquecida e envelhecer.

Ravenna também tem suas raízes na mitologia escandinava: é uma encarnação de Morrígan, uma deusa com forma de corvo que está associada os conceitos de vingança, guerra e a morte, além de ser uma variação de outros credos pagãos, como a Banshee (que pode aparecer em forma de uma jovem e bela mulher, ou mesmo de uma velha repugnante), e também Lilith (Suposta primeira esposa de Adão que teria sido “trocada” por Eva, segundo a tradição judaica). Daí viria o ciúme, e o medo de ser trocada.

Nessa salada cultural de referências e sutilezas, muita coisa se perde. Muita gente não percebe que a história por fim tomará seu rumo natural: apesar do amor de Branca pelo caçador, se casará com o príncipe por gratidão ou por tradição. Mas isso pouco importa para a trama. Para mim, ficam os bons momentos, as melhores cenas de luta com dois machados do cinema, um espetáculo de referências visuais e uma porção de boas idéias. Recomendo!

brueh

Publicitário fã de histórias em quadrinhos, cinema, livros e todo tipo de cultura Nerd. Atua como ilustrador profissional em seu estúdio, Panda Vermelho e, no tempo livre, é editor do QueAbsurdo e da revista 3D&T2, mestra, lê, joga Xbox e planta bananeira!


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